CIOs, analistas e consultores revelam as tecnologias e estratégias que vão fazer a diferença nas empresas brasileiras no ano que vem
(por Murilo Ohl, Info Corporate, 12/2007)
Há dois meses, o Gartner sugeriu aos CIOs planejar a TI tendo como base
dois cenários: um de crescimento dos negócios e outro para o caso de uma
eventual recessão. Esqueça essa história. Se a previsão valer, será para o
mercado americano, onde os orçamentos de TI crescem pouco já há alguns
anos. Em países da América Latina, segundo o Gartner, os budgets de TI
para 2008 devem, no mínimo, repetir o aumento de 8% registrado em 2007. No
Brasil, segundo a consultoria IDC, o mercado de tecnologia como um todo
deve dar um salto de 12%, chegando a 22 bilhões de dólares. Sem a sombra
da recessão, as empresas lutam para crescer e se tornarem mais
competitivas.
Por isso, é hora de arregaçar as mangas e planejar o trabalho do ano que
vem. Info CORPORATE ouviu CIOs, fornecedores, consultores e analistas para
traçar um mapa das principais tendências da TI para 2008. O resultado são
sete idéias que, esperamos, sirvam de inspiração para os líderes de TI.
Estão presentes nesse levantamento as tecnologias e as estratégias que em
2008 devem entrar na agenda dos CIOs que desejam contribuir para tornar as
empresas brasileiras mais inovadoras, lucrativas e eficientes. Confira as
idéias e veja como elas impactam suas metas e o planejamento estratégico
da TI.
1. REVISE O OUTSOURCING
A terceirização está mesmo dando resultados? O início do ano pode ser uma
boa época para rever os atuais contratos, ampliar o nível de terceirização
ou reincorporar atividades que estão sendo realizadas externamente. É
preciso estar atento não só aos resultados que o outsourcing já trouxe,
mas ao que ainda está por vir.
“Às vezes, o outsourcing tem uma performance adequada, mas as perspectivas
de evolução não são boas”, diz Sergio Lozinsky, vice-presidente da Booz
Allen Hamilton. “Outra questão que os CIOs devem olhar é se o outsourcing
se tornou uma barreira à inovação. Se isso ocorreu, está na hora de trazer
o processo para dentro de casa novamente, porque a estrutura enxuta está
impedindo a empresa de crescer”, diz Lozinsky.
Grandes provedores de outsourcing vêm buscando modelos de contrato com
pagamento variável, de acordo com o resultado que a terceirização traz
para o cliente. “Antes, as empresas ficavam satisfeitas com o fato de
repassar um problema para um provedor”, diz o consultor André França
Cardoso, executivo da IBM Global Technology Services.“Agora, o CIO vem
pedindo algo melhor”, afirma. Segundo Cardoso, a IBM pretende ampliar a
presença das cláusulas “risk and reward” (risco e recompensa) nos
contratos de outsourcing que mantém com empresas brasileiras. Trata-se de
um modelo de acordo em que a remuneração do prestador de serviço está
atrelada ao resultado do cliente. Assim, se a empresa cresceu ou lucrou
mais, o provedor ganha. Se o resultado foi negativo, o fornecedor não
recebe nada. Além da IBM, a Accenture possui clientes brasileiros nessa
modalidade. Para utilizar esse modelo, a IBM tem buscado estabelecer
indicadores de negócios específicos para cada indústria. “O cliente deve
pagar pelo consumo de infraestrutura e mão-de-obra de TI na linguagem do
negócio dele”, diz Cardoso. No lugar de Mips ou horas-homem entram
critérios como número de usuários ou número de transações, aproximando o
outsourcing de um modelo de utility computing.
Relação madura
Apesar de não ser novo, o modelo de risk and reward ainda é conside-rado
imaturo e merece ressalvas. “É preciso ver o quanto as empresas estão
dispostas a compartilhar lucros e prejuízos”, afirma Lozinsky. “A opção
por um contrato desse tipo exigiria uma avaliação muito ampla do negócio
da empresa e ainda assim teria um alto grau de subjetividade nas
análises.” O mais provável é que esse tipo de contrato se aplique em casos
específicos, onde é possível estabelecer uma relação entre o outsourcing e
o negócio.“É um tipo de relacionamento que recomendamos para contratos em
que os dois lados têm um nível de maturidade bastante alto e um
relacionamento muito estreito”, afirma Cassio Dreyfuss, vice-presidente de
pesquisas do Gartner. Hoje, esse modelo é mais comum em trabalhos que
envolvem transformação, ou seja,em que o resultado é um novo modelo de
negócio. “É preciso haver um risco e um potencial de resultados”, diz
Dreyfuss. Esse tipo de contrato se aplica também na direção oposta: o
fornecedor promete grandes economias como resultado do outsourcing. Nesse
caso, cliente e fornecedor “racham” as economias.
2. CONSTRUA UMA TI FLEXÍVEL
O Grupo Pão de Açúcar traçou neste ano uma estratégia de TI de longo
prazo, que prevê a realização de mais de uma centena de projetos até 2010.
Para todos os projetos, Ney Santos, diretor de TI da companhia,
estabeleceu uma regra básica e inquestionável: é obrigatório o uso de um
framework de SOA (Arquitetura Orientada a Serviços). Foi criado um grupo
de integração que é responsável por disseminar o conceito dentro da
empresa. “Essa nova arquitetura deve estar presente em todas as ações da
TI”, afirma Santos.
Apesar de já ter sido foco da atenção das empresas nos últimos dois anos,
SOA, na visão de CIOs e consultores, continuará em alta em 2008.“O que se
viu até agora sobre o assunto não é nada em comparação com o que ainda
está para ocorrer”, diz Andrea Fonseca França, líder de estratégia de TI
da IBM para a América Latina. A pressão por eficiência operacional da TI é
o principal fator que leva empresas a investir em SOA, de acordo com a
consultora. “Como a TI está sendo cobrada por apresentar resultados mais
rapidamente, é necessário uma arquitetura modular, que possa ser
reutilizada e entregue rapidamente como serviço de tecnologia”, afirma
Andrea.
Segundo Reinaldo Roveri, da consultoria IDC, também vai colaborar com a
expansão de SOA uma maior maturidade de produtos oferecidos sob esse
conceito. Praticamente todas as aplicações importantes hoje contêm as
características de SOA. As ferramentas de desenvolvimento também prevêem a
nova arquitetura, de capa Tendências modo que qualquer tecnologia que uma
empresa venha a adquirir provavelmente tenha traços de SOA.
Para o Gartner, no entanto, antes de atingir um estágio pleno de
utilização da arquitetura orientada a serviços, as corporações devem
olhar, em 2008, para alguns de seus precursores tecnológicos. São eles:
modelagem de processos de negócios e mashups. Cada um deles representa uma
etapa a ser superada em direção da nova arquitetura corporativa. Definir
processos de negócios, por exemplo, é um trabalho de conciliar projetos de
SOA com projetos de desenho de processos. Mashups são os componentes de
aplicação disponíveis na web para a criação de ferramentas corporativas.
Segundo o Gartner, 80% do desenvolvimento de aplicações empresarias em
2010 passarão pelos mashups. Para muitos analistas, os mashups representam
o ponto em que SOA encontra a web 2.0.
3. MELHORE O BI
Novamente os CIOs colocam Business Intelligence entre suas
prioridades de TI para 2008. Dessa vez, não se trata da adoção da
ferramenta, que na maioria das empresas já funciona, mas de um processo de
revisão de suas capacidades. Em outras palavras, os projetos de BI ainda
não desencantaram. Um dos motivos é que as aplicações foram projetos
departamentais que, com o tempo, não produziram uma visão estratégica da
informação. “Sobrou aquela máxima ‘eu faço picado e depois integro’”, diz
Andrea Fonseca França, da IBM. Só que com a economia em crescimento, as
empresas estão pressionando a TI para ter ferramentas capazes de gerar
informação de melhor qualidade.“O acesso a informações gerenciais continua
a ser alvo de reclamações de usuários, que ainda não dispõem dos dados que
precisam para tomar decisões”, afirma Sérgio Lozinsky. “Não é por falta de
ferramenta, mas por falta de agilidade da TI”, diz.
Os projetos atuais tiveram ambições muito modestas (e equivocadas), na
opinião de Lozinsky. No lugar de buscar ganhos de agilidade na criação e
apresentação dos dados estratégicos, as implementações de BI procuraram
substituir os meios anteriores, como as planilhas Excel.
Uma das formas de obter um BI mais eficiente será trabalhar melhor a
qualidade dos dados, não só na aplicação, mas também nos data marts, no
banco de dados e no ODS (Operational Data Store). O Gartner aponta ainda a
gestão de metadados como uma das dez tecnologias estratégicas para 2008. O
chamado master data management será o alicerce de uma série de tecnologias
que as empresas deverão implementar, como CDI (Customer Data Integration)
e PIM (Product Information Management).
4. AMPLIE O ERP
Este ano, o orçamento de ERP das empresas americanas cresceu 11%, segundo
pesquisa da AMR Research, que prevê um número semelhante em 2008. Trata-se
de um bom crescimento para uma tecnologia que já atingiu um estágio
avançado de maturidade. Segundo Ione de Almeida Coco, vice-presidente do
programa de executivos do Gartner, essa tendência deve chegar ao Brasil e
figurar entre os desafios tecnológicos dos CIOs em 2008. “Há um interesse
das empresas em expandir as funcionalidades do ERP e incluir novos
usuários, localizados em áreas ainda não cobertas”, diz Ione.
Um dos fatores que puxam essa tendência é o fato de que fornecedores, como
Oracle e SAP, estão lançando novos módulos de seus produtos, tentando
ocupar nichos que pertenciam a fornecedores de soluções pontuais. Isso
abre uma oportunidade para as empresas usuárias substituírem sistemas
legados, unificando a TI com um provedor.
Segundo a AMR Research, 82% das empresas de varejo e indústria de
manufatura estão em fase de aquisição de novos módulos de ERP.
O que os fornecedores já perceberam é que, apesar dos enormes
investimentos realizados, há ainda muito trabalho a ser feito na automação
de processos. “As empresas têm muitas áreas que não são tocadas pelo ERP”,
diz Sérgio Lozinsky, vice-presidente da Booz Allen Hamilton. Há espaço
para integração, principalmente de atividades operacionais como contact
center, logística, gestão de estoque e assistência técnica. “O CIO deve
procurar novas possibilidades de automação”, diz Lozinsky. Essa tarefa
está na agenda de Wellington Brigante, CIO do grupo usineiro Zilor. No
segundo semestre de 2008, a empresa pretende realizar a integração de seus
dois principais ERPs: o SAP e a solução de automação industrial MES
(Manufacturing Executing System), fornecida pela GE. “Essa composição das
duas áreas vai permitir criar um console único de gerenciamento”, afirma
Brigante.
5. INVISTA NA INFRA-ESTRUTURA
Na fabricante de alimentos Sadia, 2007 foi o ano da virtualização. A
empresa começou consolidando os servidores Risc, passou para as máquinas
Intel e ainda aplicou a virtualização no projeto de troca de desktops por
terminais thin client. A reforma geral na infra-estrutura proporcionou
reduções significativas de custo, não só na manutenção das máquinas, mas
também no consumo de energia do data center. No entanto, o benefício mais
comemorado por Marcos Caldas, gerente geral de TI da Sadia, foi a
conquista de um ambiente de alta disponibilidade dos sistemas legados,
inclusive com a implantação de um site de backup. “Agora a infraestrutura
assegura a continuidade dos negócios”, afirma Caldas.
Disponibilidade
O caso da Sadia ilustra como deve ser a maioria dos projetos de
virtualização em 2008. A redução de custos está ficando em segundo plano,
conforme as empresas descobrem que a tecnologia é uma arma importante para
melhorar a utilização de recursos e aumentar a flexibilidade da TI.
Segundo o Aberdeen Group, 50% das empresas usam máquinas virtuais como um
recurso da estratégia de alta disponibilidade e recuperação de desastres e
77% já têm, ou pretendem adotar, a tecnologia em 12 meses. “Os
investimentos em virtualização e blade devem ser mais intensos em 2008”,
diz Reinaldo Roveri, analista sênior de mercado da IDC Brasil. Um dos
fatores que devem contribuir é a chegada do sistema operacional Windows
Server 2008.
O Gartner adverte, no entanto, que os objetivos de disponibilidade e
flexibilidade de sistemas só podem ser cumpridos com o investimento em
novos softwares de automação, que têm recursos de gestão baseados em nível
de serviço e regras de uso. É o que a empresa de pesquisas classifica como
Virtualização 2.0. “Os CIOs devem se preocupar em gerenciar e desenvolver
a infra-estrutura para que ela não atrapalhe o crescimento da empresa”,
afirma Ione Coco, do Gartner. Segundo a consultoria TheInfoPro, o boom da
virtualização está causando uma expansão do mercado de software para
servidores, com 50% das empresas indicando aumento nos gastos com
programas para máquinas virtuais.
6. SEJA UM GESTOR EFICIENTE
Nunca se exigiu dos líderes de TI tanta habilidade para dar respostas
rápidas ao negócio. Isso se deve ao cenário de crescimento e competição
que caracteriza a maioria dos setores. Em 2008, os CIOs devem ser bastante
pressionados por novos ganhos de eficiência nos gastos e investimentos da
área de TI. Isso significa estar pronto para apoiar o crescimento da
empresa e participar do processo de inovação, mas, ao mesmo tempo, manter
uma estratégia de redução de despesas. “O CIO será de novo pressionado a
cortar custos. Isso ocorrerá ano a ano e é uma situação da qual o
executivo de TI não pode fugir”, diz Sérgio Lozinsky.
O líder de TI terá de ser mais incisivo na montagem de sua equipe. Com
recursos limitados, não será possível sacrificar um cargo com um
funcionário inadequado para a função. O problema, segundo Ione Coco, do
Gartner, será cumprir essa regra num mercado carente de mão-deobra. Por
conta disso, a rotatividade será alta, atrapalhando o andamento de
projetos. “As empresas terão de investir mais na atração, retenção e
desenvolvimento de funcionários de TI”, afirma Ione.
O CIO também precisará buscar meios para desonerar o budget. Uma das
formas de fazer isso é controlar a demanda por novos projetos. Lozinsky
diz que uma solução poderia ser instituir mecanismos de chargeback, em que
a TI cobra da área usuária os custos. “É um modelo conhecido, muito
aplicado no exterior, mas ainda incipiente no Brasil”, diz Lozinsky.
7. ARRUME A CASA DEPOIS DO IPO
Desde 2004, 100 empresas abriram capital na Bovespa (Bolsa de Valores de
São Paulo). A busca por capitalização com lançamento de papéis no mercado
de ações deve continuar em 2008. Como efeito, novas companhias devem
eleger a governança de TI como uma prioridade de seus investimentos,
repetindo um movimento pelo qual já passaram as corporações que tiveram de
se ajustar às exigências regulatórias dos mercados de capitais no
exterior. Segundo o IT Governance Forum, 89% das empresas sulamericanas
consideram muito importantes a adoção de regras de controle e adequação da
TI. Abrir capital significa para uma empresa, e para a área de TI, entrar
num ambiente novo, com regras diferentes. Isso exige aprendizado,
principalmente na questão da transparência. “No jogo da governança
corporativa não basta ser honesto, é preciso parecer honesto”, diz Sérgio
Lozinsky, que cita o caso de uma empresa que fez IPO na Bovespa, no ano
passado, e logo depois precisou realizar um enorme investimento para
substituir uma série de legados escritos em Dbase. “Os sistemas atendiam
perfeitamente os processos de negócio para os quais tinham sido
concebidos”, afirma Lozinsky. O problema é que durante uma auditoria
surgiram dúvidas a respeito da segurança das aplicações em DBase. “Ficou
constatado que faltava proteção aos dados e decidiu-se substituir um
legado que funcionava bem”, diz Lozinsky.
Mais pressão
A história mostra que a abertura de capital exige investimentos que não
são claramente produtivos. Onde está o benefício, então? “Na imagem da
corporação diante dos acionistas e dos investidores”, afirma Lozinsky.
Essa tarefa de buscar transparência exige uma outra forma de justificar
investimentos em TI. Em casos como esses, a missão do CIO é detectar as
falhas de segurança, de controle e de eficiência de processos e agir para
assegurar que a TI não se torne a vilã da história. “É preciso eliminar
ferramentas e sistemas que tenham alto nível de risco”, afirma Sharly
Swissa, vice-presidente de TI da operadora de telecomunicações GVT, que
abriu capital este ano.
Um IPO representa também um fator de pressão a mais para a carreira do
CIO. Empresas que abrem o capital precisam mostrar resultados rapidamente.
Isso significa uma cobrança maior por eficiência em toda a corporação, com
cortes de custos e geração rápida de caixa.
Mas um IPO pode ser visto também como oportunidade. Na GVT, a abertura de
capital viabilizou uma série de novos investimentos em segurança e
disponibilidade. “É preciso lembrar que o IPO injeta capital na empresa,
que ganha força para lançar novos projetos”, afirma Swissa. Segundo
Reinaldo Roveri, da IDC, o CIO pode aproveitar o lançamento de ações para
obter uma visão mais completa da empresa. A implantação de mecanismos de
governança obriga o líder de TI a pensar questões estratégicas para o
negócio, e não só para a TI. “A TI deve entender e gerenciar todos os
processos em que está envolvida”, diz Roveri.
Fonte: http://info.abril.com.br/corporate/edicoes/51/arquivos/6511_1.shl